Paulo Alexandre Lourenço Lobão

Entrevista com Paulo Alexandre Lourenço Lobão

Por Espaço Aberto em Julho de 2013

Publicada na revista Nº 14
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EA - Na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto os estudantes têm formação na área das medicinas complementares?

PL - A Faculdade de Farmácia proporciona aos estudantes a possibilidade de frequentar uma unidade curricular semestral onde abordoamos a temática das Terapêuticas Alternativas, como a Medicina Tradicional Chinesa, a Acupuntura e outras. No entanto, cerca de um terço dos conteúdos referentes a esta unidade diz respeito à Homeopatia, por ser aquela que mais se aproxima da atividade farmacêutica. E tem havido muita procura por parte dos estudantes. Penso que esta unidade curricular não existe em mais nenhuma faculdade de farmácia do país. Existe uma grande probabilidade de vir a existir uma só de Homeopatia e medicamentos homeopáticos. Nesse caso, falar-se-á com maior pertinência sobre os seus fundamentos e os estudantes aprenderão a fazer medicamentos homeopáticos. Neste momento, é só para estudantes que optem por a frequentá-la. Mas posso afirmar-lhe que se verifica uma grande procura desta unidade por parte dos estudantes.

EA - Pode falar um pouco sobre a Homeopatia?

PL - De todas as terapêuticas complementares que menciono nas aulas – e refiro umas com mais insistência do que outras –, a Homeopatia é aquela que é mais adequada ao farmacêutico.

EA - A Homeopatia está pouco presente nas nossas farmácias?

PL - Este curso é patrocinado pela Boiron, onde estive no ano passado. A Boiron é uma indústria farmacêutica francesa ao nível do melhor do que se faz em qualquer parte, desde a recolha de plantas, da extração e da manipulação.
Há cada vez mais farmácias a enveredar pela Homeopatia e com medicamentos homeopáticos à venda. O objetivo deste curso é dar a conhecer aos estudantes farmacêuticos os fundamentos das várias terapêuticas, num espírito crítico. Eu nunca direi a ninguém que esqueça os medicamentos convencionais e que faça só homeopatia. O objetivo não é formatar ninguém; apenas que se aprendam noções para poderem aconselhar os pacientes, já que o farmacêutico é o profissional de saúde que as pessoas contactam mais rapidamente, mesmo antes do médico.
Tenho uma aluna que faz acupuntura há vários anos e com a qual se dá muito bem. Tem umas hérnias inoperáveis que lhe provocavam dores atrozes; tomava anti inflamatórios que as resolvia, mas que também lhe traziam imensos problemas estomacais. Começou a fazer acupuntura e as várias sessões que faz ao longo do ano resolvem-lhe as dores, sem recorrer aos medicamentos e aos seus efeitos. Isto para exemplificar que a ideia não é formatar ninguém, mas dar a conhecer a sua existência, para que possam aconselhar. No caso da Homeopatia, como tem a ver com fórmulas farmacêuticas, os farmacêuticos podem inclusivamente fazer “manipulados”. Há algumas farmácias que os fazem.

EA – A Homeopatia é, então, uma mais valia para o farmacêutico?

PL - Eu acho que é uma mais valia para o farmacêutico e para qualquer profissional de saúde ter conhecimentos sobre das terapêuticas não convencionais. Tenho a certeza de que uma farmácia que queira enveredar pela Homeopatia – e muitas não sabem nada sobre a matéria -, se lhe surgir um farmacêutico que tenha frequentado aqui esta unidade curricular, provavelmente o escolherá, já que terá os conhecimentos necessários. E o que interessa é dar essa mais valia aos estudantes, sem menosprezar nada. Devemos complementar tudo, ter bom senso, ser críticos e transmiti-lo aos estudantes, que não têm uma tarefa fácil. Numa universidade onde se faz ciência, não é fácil trabalhar estas terapêuticas. No entanto, existem as evidências clínicas de pessoas que fazem Homeopatia durante um período de tempo e continuam fazendo, porque obtêm bons resultados. Se é efeito placebo, não sei. O que é um facto é que isso acontece.

EA – Os médicos do Serviço Nacional de Saúde podem prescrever medicamentos homeopáticos?

PL – Há médicos que têm conhecimentos de Homeopatia e que prescrevem medicamentos homeopáticos. A Farmácia Barreiros - falo desta farmácia porque levo os estudantes desta unidade curricular a visitar os seus laboratórios, muito bem apetrechados ao nível homeopático e onde se faz Homeopatia há muitos anos -, recebe receitas de medicamentos homeopáticos prescritos por médicos.

EA – A Homeopatia poderia ser uma especialidade médica?

PL - Em muito países existem hospitais homeopáticos. Em Inglaterra, desde o século XIX. Em Portugal, não estou a ver como e penso que será muito difícil. No entanto, já se fazem sessões de Reiki no IPO. Os pacientes que fazem quimioterapia e radioterapia que fazem essas sessões sentem-se lindamente. Se traz bem estar aos pacientes, muito bem. O importante é que se ajude.
Há alguns anos noticiava-se que uma criança tinha morrido depois de tomar um medicamento homeopático. Isso não é verdade. Efetivamente, a criança morreu por não ter tomado o antibiótico que deveria ter tomado, pois estava com uma infeção. Qualquer pessoa de bom senso trataria primeiro a infeção com antibiótico e tomaria um medicamento homeopático em complementaridade.
Há algumas semanas estive presente num workshop sobre Princípios e Práticas de Medicina Complementar, onde estava uma médica e que faz Homeopatia há 30 anos com resultados excelentes, mesmo em cancerologia.

EA - Os medicamentos homeopáticos são mais caros que os convencionais?

PL – Depende dos medicamentos. Uns são outros não, depende do tipo de processo necessário para a sua elaboração. Os medicamentos homeopáticos não são comparticipados, pelo que poderá vir daí a ideia de que são mais caros. Mas há já seguradoras que proporcionam a possibilidade de optar pela Homeopatia.

EA - Tem conhecimento da existência de algum curso apenas de Homeopatia?

PL - Na faculdade de farmácia não existe, mas está a ser pensada uma unidade curricular só de Homeopatia, no próximo ano. No plano está estipulado que os estudantes aprendam, por exemplo, a fazer medicamentos homeopáticos, aconselhamento clínico…
Eu faço parte da comissão de estágios e no final do estágio coloco sempre uma questão: “Fizeram-lhes perguntas sobre terapêuticas não convencionais?” A resposta é sempre sim, mas que não souberam aconselhar, por não terem conhecimentos para isso. Portanto, esta formação é uma mais valia para os estudantes.
Posso dizer-lhe que os estudantes estão ciosos de novos conhecimentos, algo que vá para além dos conhecimentos nucleares. Sentem que é uma mais valia para a sua profissão de farmacêuticos. Tenho a certeza que se abrissem 100 vagas para a unidade curricular de terapêuticas alternativas, conseguia preencher a totalidade delas.

Paulo Alexandre Lourenço Lobão, obteve o grau de Doutor na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) em 2005.
É Professor auxiliar no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, onde leciona Tecnologia Farmacêutica, Dispositivos Médicos e Terapêuticas Alternativas.
É o responsável (regente) pela Unidade Curricular de Terapêuticas Alternativas do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas. Esta Unidade Curricular teve início no ano letivo de 2010/2011.


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