José Pinto da Costa

Entrevista com José Pinto da Costa

Por Espaço Aberto em Julho de 2013

Publicada na revista Nº 14
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Espaço Aberto (EA) - Medicinas alternativas. Concorda com esta designação?

Dr. Pinto da costa (PC) - Alternativas a quê? Eu acho que a nada! A medicina é só uma. É a preocupação que a humanidade sempre teve em apaziguar os seus males, em diminuir os padecimentos, do próprio ou dos outros. Desde sempre houve a preocupação de diminuir os males mediante as mais diversas interpretações mágico-religiosas, na submissão à vontade divina, traduzida na necessidade de vencer a angústia vital. Com o tempo, as plantas, a água e os ventos integram a produção da doença e da cura. Portanto, por aqui vemos que esta designação de medicinas alternativas está integrada numa medicina integrativa. Se integrámos todas estas práticas de medicinas ao longo do tempo e do espaço, temos medicinas integrativas, que é o termo desejável para as designar, em substituição de alternativas, chinesa ou tradicional chinesa, com o inconveniente de que muita da medicina tradicional chinesa não tem nada a ver com a China, mas com a Índia e com as práticas dos hindus. No século XXI, vamos criar uma certa harmonia, chamando-lhes medicinas integrativas, para onde concorre toda a experiência médica através dos tempos e a sua compreensão biológica, psicológica, psicofarmacológica… Com a deambulação da escrita, nas civilizações orientais, a metodologia de causa-efeito adquiriu um caráter científico mais precocemente do que no resto do mundo. Isoladamente, na Europa, o conhecimento centrou-se na ação de substâncias isoladas quimicamente, dando azo às chamadas medicinas convencionais. Paralelamente, noutras partes do mundo, as pessoas apaziguaram as suas maleitas com rituais algo diversos dos europeus, trazidos tardiamente pelos missionários do oriente para o ocidente. Foi assim que surgiu como novidade a prática oriental milenária, com experiências vividas de práticas terapêuticas. Essas novas práticas foram mal recebidas, como acontece a princípio, em regra, com o que é diferente. Foram adjetivadas de Medicina Tradicional Chinesa, quando algumas dessas práticas não eram da China, mas sim da Índia. Outras vezes chamava-se-lhes Acupuntura, Medicina Oriental ou Medicinas Naturais ou Medicinas Alternativas. De tanto nome, tem resultado mais confusão do que benefícios para a saúde das populações. As múltiplas intervenções no campo da saúde, na globalidade do século XXI, aproveitando como possibilidade qualquer esquema terapêutico, no profundo respeito pela liberdade de escolha e pelo paciente, sugerem que todas estas práticas sejam abrangidas na designação de medicinas integrativas. Porquanto, esta designação muito generalista traduz o conceito de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), designadamente, um complexo de bem-estar físico, mental, social e espiritual. As medicinas alternativas e complementares que surgiram como resposta a insatisfação ao atual sistema nacional de saúde, à fragmentação do cuidado e ao desejo de tratamentos mais suaves e com menores riscos de reações adversas, levou à aceitação da designação de medicinas integrativas. O seu ensino nas escolas de Medicina tem sido considerado como um investimento no sentido da melhoria das condições de saúde das populações. É a sociedade que tem o dever de definir as medicinas integrativas. Sobre estas, existem mais de 300 trabalhos científicos publicados em revistas indexadas e com impacto variável, o que justifica esta designação. É o doente que tem o direito de escolha, após respeitado consentimento informado já previsto no normativo português. As medicinas integrativas como subcompartimentação incluem as já referidas na lei, designadamente, a Acupuntura, a Quiroprática, a Homeopatia, a Osteopatia, a Naturopatia, a Fitoterapia e outras reconhecidas internacionalmente.

José Pinto da Costa

Professor jubilado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS-UP), José Eduardo Pinto da Costa, nome maior da Medicina Legal, é membro de dezenas de sociedades científicas, nacionais e internacionais, e autor de inúmeros livros e artigos de opinião publicados em vários órgãos da Comunicação Social. Conhecido médico legista, é ainda professor de Psicologia Forense, Neuropsicopatologia, Psicofarmacologia e Criminologia Clínica, na Universidade Lusíada do Porto. Orientou múltiplas teses de doutoramento, organizou três congressos internacionais, tendo, inclusivamente, coordenado e presidido o 9 º meeting da Academia Internacional de Medicina Legal, o único realizado em Portugal, na cidade de Vila Real.

EA - ao regulamentar as medicinas integrativas, estamos a confrontar dois tipos de medicinas?

PC - O pai da Medicina, Hipócrates, já dizia que existe uma força vital curativa, com a qual o médico tem de contar. É um princípio que já vem de há 450 anos A.C., pelo menos. Não é nada de novo. Nas ideias de Hipócrates, o corpo funciona na base das emoções, como elas são, sem critérios de bom ou de mau. Até porque hoje é muito difícil dizermos que uma parede é branca e que outra é preta, porque a maior parte é cinzenta. Portanto, em critérios de normalidade não haverá extremos, mas sim a individualidade da maioria, que é cinzenta. As emoções desencadeiam a reação adequada. É normal chorar no enterro dos pais, dos irmãos ou de familiares próximos. Uma emoção provoca uma ação. A emoção tem três camadas. Na base, uma formada pela esperança que todos temos de nos sentirmos melhor pela procura do bem estar. Na camada seguinte, está tudo o que a pessoa humana quer, isto é, os seus desejos, as suas necessidades, as metas da vida. Na terceira camada estão as capacidades e as competências para obter o que se quer. Portanto, nas medicinas integrativas vamos lidar com todas as disponibilidades para obtermos estas finalidades. Nós não nos emocionamos com tudo; varia personalisticamente. O importante é acreditar. Emocionamo-nos num batizado, se acreditarmos que vai haver mais um cristão; se não acreditarmos, esperamos só pela hora do almoço. A vida não é nada mais do que um conjunto de recordações, imagens, risos e lágrimas mediante as quais tomamos consciência do que somos.

EA - em que consistem as medicinas alternativas que o professor chama de integrativas?

PC - Para uns, as medicinas alternativas serão um conjunto de diversas crenças e técnicas que nada têm em comum. Para outros, serão os métodos naturais com um substrato multifatorial esquematizado em vários princípios. Reportando-nos ainda a Hipócrates, ele dizia que o Homem é parte integral do Cosmos e que só a Natureza pode preservar e curar os seus males. Hipócrates já nos dizia que “o corpo é um todo harmonioso, cujas partes se mantêm numa dependência mútua e cujos atos são solidários uns com os outros”. Mais, que “as diferentes partes do corpo, seja qual for a sede primitiva do mal, comunicam-se umas às outras”. Uma verdade: “O médico não cura doenças; ele deve ser o seu intérprete”. O Hipócrates dizia ainda que a saúde “é o estado perfeito da harmonia das forças, o seu equilíbrio perfeito”. Portanto, não estamos a inventar nada, já há 450 anos a.C. era assim que se pensava. Em termos de medicinas integrativas, o que acabei de dizer é perfeitamente atual no século XXI. Num contexto convencional, podemos agrupar as medicinas alternativas em três grandes secções. Primeiro, vamos considerar as terapias físicas e, nestas, a Quiroprática, a Aromoterapia, a Osteopática, a Fitoterapia, a Massagem e a Terapia Nutricional. Num segundo grupo, as terapias psicológicas, que têm por objetivo ajudar o corpo através da mente e das emoções, ou seja: o Aconselhamento, a Psicoterapia, a Hipnoterapia, a Visualização, a Meditação, a Terapia de Relaxamento e o Bio Feedback ou seja, a Bio Retração. Finalmente, como terapias de energia: a Homeopatia, a Acupuntura, o Shiatsu e a Reflexologia. Em esquema, é este o campo de intervenção das medicinas integrativas, que não se opõem de maneira nenhuma à relação médico-doente das medicinas convencionais, antes pelo contrário, complementam-se. As medicinas alternativas são um grupo de práticas teoricamente anti-químicas, ou seja, que não privilegiam a química. Ora, hoje sabemos através das Neurociências que o modo de funcionamento do cérebro está relacionado com substância ditas neurotransmissores químicos. Hoje sabemos que, sobretudo através da ressonância magnética, que o funcionamento, inclusive da Acupuntura, está relacionado com estímulos e libertações químicas consoante setores que são estimulados em terminações nervosas. Portanto, de um modo geral, a Naturologia, a Acupuntura, a Homeopatia, o Shiatsu, a Naturopatia e a Osteopatia são aqueles grupos de práticas que interferem quimicamente com o organismo humano, sem precisar de introduzir substâncias químicas estranhas. Digamos que esta designação de medicina alopática, ou seja, a de medicina convencional, é recente, muito mais do que as práticas naturais, as tais medicinas integrativas do oriente de que, na Europa, tomámos conhecimento através dos missionários. Todas as medicinas complementam-se. A grande questão das medicinas integrativas é que elas não tratam nada isoladamente; tratam o indivíduo no seu grupo psicossomático, na perspetiva integral do indivíduo, tendo em conta que a mente e o corpo são inseparáveis, que são capazes de se regenerarem, se o indivíduo estiver convencido e decidido a tomar parte da sua cura. Hoje sabemos que a existência de células estaminais no cérebro, devido à própria vontade e determinação do indivíduo, facilita muito nos processos de cura. A medicina holística ou integrativa não trata o sintoma de qualquer maneira. Na medicina alopática, se o indivíduo está com uma pneumonia, damos-lhe um antibiótico; se está com uma diarreia, damos-lhe uns comprimidos de sulfato de neomicina. Ou seja, não tentamos perceber de onde vieram a pneumonia e a diarreia. A medicina holística trata o indivíduo como um todo, trata o porquê. Por isso é que eu sou a favor das medicinas integrativas. Hoje em dia, não podemos fazer uma medicina alopática sem termos em linha de conta todos os fatores. E mesmo os que são contra a JULHO ‘13 • 35 medicina holística utilizam-na, porque é muito criticável olhar para um indivíduo e receitar de caneta. É preciso saber o que é que o doente tem e porquê. Claro que, na prática, é complicado em apenas alguns minutos de uma consulta conseguir realizar esta medicina integrativa...

EA - na sua opinião, qual é a razão que leva ao aumento de adeptos das medicinas integrativas?

PC - Na minha opinião, há dois fatores. Por um lado, a falta de tempo de ouvir, de escutar de interpretar o mal do outro; por outro, porque não é por dar um químico a uma pessoa - que tem vantagens e desvantagens - que resolve todos os seus males. Há alguns anos estive na África do Sul e, lá, quando um cidadão estava doente, ia a um médico; quando estava muito mal, ia a um feiticeiro, que, de alguma maneira, interpretava a sua dificuldade. Ou seja, quando precisava de encontrar uma solução difícil, procurava as medicinas naturais. Claro que não estamos a falar de feitiçaria ou de bruxaria, nem de outras situações do género. Estamos a falar de uma ciência milenária que já era praticada no oriente, ainda não existíamos como civilização. É fundamental o casamento positivo das mais diversas formas. É fundamental a auto estima, a imagem corporal, a capacidade inata do corpo se recuperar a si mesmo... Quando nos ferimos, a pele tem capacidade por si só de se regenerar; podemos acrescentar qualquer coisa para evitar infeções, mas o indivíduo tem a capacidade de se auto regenerar.

EA - Se existe a noção de que as medicinas integrativas vêm do princípio da história, como é que a medicina tomou as proporções que a caracterizam hoje?

PC - Há muitos fatores. A medicina alopática entrou pela química e ficou dependente dos medicamentos. Nessa dependência dos medicamentos estão em jogo grandes lucros.

EA - Por outro lado, dá ao paciente uma resposta rápida…

PC - Rápida, mas não definitiva. Se o indivíduo tomou o medicamento, deixou de ter diarreia, mas o motivo que a causou permaneceu.

EA a pessoa que tem baixa autoestima, que não tem força para lutar por ela, os químicos ajudam?

PC - Quando há diminuição das capacidades energéticas no organismo humano – e tudo se baseia na energia –, este reage mais rapidamente às substâncias químicas. Não quer isto dizer que os seus inconvenientes não venham a ser mais prejudiciais. Nos chamados psicofármacos, é hoje paradigmático que toda aquela série de substâncias que vão atuar sobre as diversas funções intelectuais têm ações positivas e negativas. Há uma interação nos cem mil milhões de neurónios que temos no cérebro no sentido de haver uma harmonia biológica, logo, se atuarmos sobre eles setorizadamente, estamos a estragar o programa.

EA - o professor acha que estas duas medicinas podem juntar-se de forma harmoniosa?

PC - Naturalmente. Primeiro, verificando o limite e a quantidade, sobretudo havendo senso. Se tiver um abcesso grande no braço, não é com homeopatia nem com ioga que lhe vou resolver o problema. Mas se tiver com uma “espinhinha”, provavelmente resulta da alteração da imunidade e, nas medicinas integrativas, haverá muitas práticas que elevem a capacidade de mobilização das suas energias.

EA - Porquê a dificuldade de legislar estas práticas?

PC - A dificuldade da legislação virá do receio do legislador, uma vez que, e não raras vezes, essas práticas são desenvolvidas por pessoas não qualificadas. Se houvesse uma exigência tão grande como há na formação da medicina alopática, em que o individuo tem de ter um curso, estágios, aval, o controlo da Ordem dos Médicos… seria diferente. Parte das medicinas integrativas já estão consignadas na lei, mas se um “bruxo” as praticar, quem é que atua? É o Ministério Público, como se fosse um caso de bioterrorismo ou de homicídio. É que, muitas vezes, os métodos são os mesmos, quer sejam prescritos por um bruxo ou por um médico: os incensos, as ervas, as infusões… Logo, não há confiança por parte de algumas pessoas. Não há controlo. Penso que está na altura de definir nacionalmente esta situação. É preciso definir quem é que pode praticar as medicinas alternativas, com que formação e como se podem outorgar, como aconteceu com a Acupuntura.


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