Francesca Scanu

As possibilidades por trás do desafio.

Por Francesca Scanu em Fevereiro 2021

Tema Desenvolvimento Pessoal / Publicado na revista Nº 19
579 visualizações

Quando algo novo e inesperado se lhe apresenta, especialmente se à primeira vista o considerar fortemente perturbador: celebre!

Um título curioso e deliberadamente provocador, parece-me uma forma adequada para celebrar os onze anos de uma revista cujo objetivo é inspirar um ampliamento da visão sobre o bem estar.

Se escolhemos sair, embora só por um momento, do ritmo ao qual estamos submetidos na nossa rutina e ficarmos a nossa atenção a observar como na natureza se manifestam os câmbios, repararemos que, no reino vegetal, as novas gemas e as novas folhas: I) aparecem de improviso: ninguém estava a espera de que elas apareceram naquele momento; II) brotam em ramos que tínhamos considerados sem vida pela inatividade manifestada durante o inverno e III) encontram comodamente lugar ao lado de folhas velhas que só esperam um sopro de vento para alcançar o solo.



Assim fazem as novas ideias na nossa mente e, como as gemas das árvores frutíferas, tem como objetivo trazermos abundantes frutos. 

O que faz realmente a diferença na perceção da realidade que nos rodeia é o olhar: é o nosso olho, e por conseguinte a nossa mente, que pode racionalmente escolher qual informação retirar do que ela está a observar. Para seguir na metáfora mencionada antes: observando essa planta podemos decidir se ficar a nossa atenção nas novas gemas, nas velhas folhas ou na planta no seu conjunto, a qual, a pesar do rígido inverno, está a conseguir utilizar a sua energia para fazer brotar novos rebentos a lado de algo que, embora tenha sido um produto seu, hoje, já não é o que foi.

O contexto social atual no qual estamos imersos, ou submersos, expõe-nos, individualmente e coletivamente, a uma necessidade de adaptação e de mudanças importantes e profundas que são comummente percebidas como desestabilizantes e perturbadoras. 

Hoje em dia, nas sessões de acompanhamento terapêutico, muitos pacientes relatam grandes dificuldade devidas, infelizmente, ao desafio que implica o ter que lidar com a dor provocada pela perda de um ou mais seres queridos e o encontrar uma forma para ultrapassar a forte sensação de falta.

Por além dessa problemática, eles descrevem frequentemente o combate interior gerado pela dificuldade que encontram a responder á necessidade de criar novos padrões de vida e erigir novos pilares aos quais apoiar-se quando o vento das dúvidas abana a mente.

Poderíamos, por assim dizer, que estamos como a nossa árvore na passagem entre o inverno e a primavera: privados de todo o que construímos até lá e com algumas folhas frágeis que só esperam de ser mudadas; embora na incapacidade de conceptualizar como atuar para tornar esses ramos aparentemente sem vida em sustenho para uma nova folhagem verde e luxuriante.

Deixarmos levar pela ansiedade abre facilmente o caminho a emoções de medo, de apreensão e a uma marcada sensação de instabilidade, a qual poderia levamos a permanecer na espera de que as coisas voltassem como antes, na esperança de voltar a servir-nos dos padrões que até ontem resultaram válidos e eficazes. 

Porquê permitir que o stress e a desorientação nos guiem na batalha que nos se apresenta não é uma solução vantajosa? 

Por duas razões fundamentais :

Eles não permitem a expressão da nossa parte mais requintada, do nosso potencial na sua forma polida

 Não permitem que o obstáculo perturbador realize o papel que veio desempenhar.

Começamos com aprofundar a primeira ideia. 

Para perceber melhor a correlação entre a formulação de uma solução frente a um desafio e o nosso potencial podemos recorrer a importantes informações procedentes das investigações dos neurocientistas. 

De acordo com alguns estudos, os conhecimentos integrados, as experiências vividas, as emoções e as sensações experimentadas ao longo da vida se juntam, no córtex cerebral, ás complexas interconexões entre neurónios ás quais dá-se o nome de sinapses. 

Estas interconexões constituem o background a partir do qual o cérebro elabora as respostas aos estímulos provenientes do ambiente interno (respostas fisiológicas) e externo (respostas emocionais e comportamentais). As experiências passadas e o que aprendemos de forma consciente e inconsciente pelo nosso ambiente (no sentido behaviourista do termo) são registadas na nossa memoria a meio e a longo prazo e servem (entre outras funções) como base para elaborar soluções a problemas que nos se apresentam no dia a dia. 

Quando nos encontramos frente a uma situação de stress muito agudo, na qual a noção de segurança é gravemente questionada, a parte cortical do cérebro apoia-se ás funções desempenhadas pelo cérebro reptiliano o qual, sendo responsável da sobrevivência na sua aceção mais primitiva e instintiva, julga mais adequado ativar respostas automáticas como “lutar ou fugir”. Daqui essas reações típicas que todos temos experienciados, manifestadas por emoções como desconfiança, irritabilidade, agressividade, ansiedade, nervosismo, etc. 

Além disso, no caso tal em que a situação resulte demandadora de uma fonte de energia superior ás reservas energéticas julgadas disponíveis naquele momento, o cérebro pode optar para adiar á elaboração de uma solução a um momento considerado como mais favorável, deixando-nos, por assim dizer, numa situação de standby .

Em situações de stress, o cérebro cortical (corresponsável da elaboração de estratégias úteis a ultrapassar a dificuldade) vai selecionar as ligações sinópticas que, de forma mais recorrente, foram empregadas com êxito positivo num número mais frequente de circunstâncias.

O detalhe que o stres não permite de ter em consideração é que essas soluções que foram categorizadas como funcionais estavam adequadas para um contexto conhecido. 

A adaptação exigida por uma situação completamente nova não pode encontrar soluções satisfatórias entre as que foram experienciadas até aquele momento.



O problema é que, si na elaboração da estratégia só consideramos as possibilidades já experimentadas (por nós ou pelo nosso circulo mais próximo) e não nos abrimos a novas possibilidades e novas combinações, não estamos a utilizar um grande potencial do nosso cérebro, ou seja a plasticidade cerebral.

O que é a plasticidade cerebral?

A plasticidade cerebral é a possibilidade de utilizar novas informações, exemplos, inspirações, vivências etc. para enriquecer nosso background de referência e aumentar ou mudar as conexões entre as nossas sinapses. 

A integração desses novos elementos permitem não só novas possibilidades e novas respostas aos estímulos interiores e exteriores, mas também uma renovação do nosso ponto de vista e da nossa aptidão frente á situação presente e as futuras. 

Vamos agora avançar aprofundando a segunda ideia, ou seja, o papel desempenhado pelo obstáculo perturbador.

Como mencionamos a pouco, as situações que nos puxam a sair da nossa zona de conforte podem constituir uma possibilidade de enriquecimento. De facto, elas estimulas outras duas ferramentas constantemente disponíveis embora pouco frequentemente utilizadas: a imaginação e a criatividade. 

Dito isto, considero muito importante fazer uma relevante diferenciação entre a imaginação e a fantasia. 

Quando falamos de fantasia, fazemos referência ao estádio inicial do processo imaginativo: ou seja, quando na nossa mente criamos imagens finalizadas á sugestão de possíveis soluções mas não passamos ao ato de concretização. Ficando neste estado o risco é de ficarmos numa situação de standby. 

Pelo contrario, o processo imaginativo e criativo, desenvolvem as etapas sucessivas e implicam: 

I) conscientização do contexto;

II) analise dos recursos disponíveis (em termos de energias físicas e psico-emocionais

III) recurso consciente á força de vontade e a ação. 

Estas as três etapas constituem a aplicação de uma ferramenta interessante utilizada na abordagem psicológica cognitiva-comportamental, e conhecida sob o nome das “3P”: Proteção, Permissão e Potência.  

Quando conseguimos baixar o nível emocional induzido por um contexto perturbador, conseguimos observar de forma mais objetiva a realidade que nos se apresenta (fase da Proteção); a partir daquele momento todas as partes que constituem o nosso cérebro conseguem avaliar de forma mais racional as energias e as ferramentas disponíveis (fase de Permissão); a partir de aí podemos recorrer á capacidade imaginativa e criativa utilizando o background do passado mais as novas informações, experiências, vivências etc. que nos permitimos experimentar graças á força de vontade e a determinação maturada (fase da Potência).

Esse processo chama-se crescimento, capacidade de resiliência e é o que transforma as aparentes tragedia e catástrofes nos mais grandes presentes para o fortalecimento da confiança em si próprio e nas suas futuras potencialidades.

Para concluir: é na perturbação dessa árvore que se prepara a sair do inverno para entrar na florescência da primavera que está o máximo potencial de mudança. 

Em cada um de nos reside o poder de escolher entre focalizar a atenção sobre as folhas que estão quase a cair ou nas ramas que, sem saber como, estão a preparar-se para deixar brotar rebentos anunciantes deliciosos e abundantes frutos.

E agora: a escolha é vossa!

Francesca Scanu

 Terapeuta & Formadora




ARTIGO SUGERIDO

 O poderoso Portal de final de 2020

O poderoso Portal de final de 2020

Silvana Correia
Por Silvana Correia em Novembro/Dezembro
Tema Desenvolvimento Pessoal / Publicado na revista Nº 17
786 visualizações

Vários portais se abrem ao longo do ano, em datas especificas como que um “convite” cósmico   para um despertar de um sono no qual a humanidade vive. 2020 é um enorme portal - ...
Ler mais

OUTRAS LEITURAS

Psicologia Onírica - Waking Dream Therapy

Por Maria Antónia Jardim
Maria Antónia Jardim
262 visualizações

( ...) MARIA ANTÓNIA JARDIM transpôs para a alegria das páginas do seu livro métodos que provêm da antiguidade e que surgem como supervivência cultural com aplicação terapêutica para as ...
Ler mais