Rosa Silva

Crónica - Pequeno Absurdo Quotidiano

Por Rosa Silva em Setembro de 2020

Tema Sociedade
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Sob(re) o Coronavírus

Metas ambientais para as próximas décadas atingidas em semanas. Sem esquemas de negociações por ilustres desconhecidos e com pastas de trabalho minadas por interesses lobistas economicistas. Naturalmente...

Petróleo? Deixa de ser moeda de troca.

Armas? Deixa de fazer sentido que alimente guerras.

Populismos? Fronteiras fechadas para todas as nações, cada uma lambendo as suas feridas.

Refugiados? As suas nações de origem reinventam-se.

Ditadores? Os seus apoiantes resguardam-se e não há palácio que lhes valha.

Máfias destruidoras de florestas recuam. No seu interior, a natureza aguarda e ganha tempo para curar feridas.

Nas cidades, os animais, imunes, aguardam que os acolham.

Crianças e jovens órfãos de ódios, quase imunes às consequências do vírus.

Crianças e jovens percebem que há mais para além da superfície, para além do consumo das marcas, para além da crítica. A competição cega já não faz sentido.

O bullying físico está cessado.

Já não encontram sentido, os pais sedentos de sucesso, sedentos de filhos bem sucedidos, a qualquer custo. Procuram sentido, os pais ausentes de si e dos filhos.

Na escola, o excesso de alunos por turma já não é um problema; o salário e o futuro dos professores é uma incógnita justificada e democrática. É uma incógnita para todos os setores.

Vizinhos conhecem-se, finalmente! Cantam juntos.

Os relacionamentos aprendem a medir a distância do espaço do outro e a respeitá-la no confinamento partilhado que é o quarto, a casa ou o mundo.

A oralidade, a palavra e as conversas regressam.

Salvar pessoas é a prioridade; salvar economias, bancos e empresas fica adiado.

O beijo e o abraço ficam adiados. Para já, ficam na intimidade.

O Namastê, antiquíssima palavra em sânscrito, já não é tique de new agers. "É uma saudação de reverência, de respeito, que acompanha o gesto de estar com as mãos juntas, como em oração, e a cabeça levemente curvada para a frente; traduzida popularmente por O Deus que habita o meu coração reverencia e reconhece o Deus que habita o teu coração.” (Dicionário Online de Português)

Lá fora, os pássaros ouvem-se como nunca.

E a humanidade reaprende a viver devagar, a par, por todos.

Rosa Silva


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