Maria João Angélico

Quíron – O curador ferido

Por Maria João Angélico em Julho de 2020

Tema Opinião
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Quíron é um asteróide que se situa entre a órbita de Saturno e Urano.

Na mitologia, Quíron, é filho de Saturno (que tomou a forma de um cavalo) e Fílria (uma ninfa do mar), fruto de uma traição, de uma situação ilícita. Quíron é meio animal e meio homem e pertence à terra e ao mar. É rejeitado pela sua mãe e pela mulher de Saturno, Réia.

Mais tarde, numa guerra, Quíron é acidentalmente ferido pelo seu amigo Hércules, com uma seta envenenada numa perna. Fica com uma ferida incurável e como é um deus, é imortal, portanto eternamente condenado a transportar esta ferida. Até aqui, percebemos pela sua história, que Quíron transporta toda uma essência de rejeição, desadaptação, desadequação, de injustiça, de não lógica.

Após ter sido ferido, começa uma busca incessante para encontrar a cura. Ele parte para outros locais, conhece novas pessoas, remédios, ervas, métodos de cura, estuda astrologia, assim como outras ciências oraculares. Começa a ensinar e a partilhar os seus conhecimentos e a facilitar a cura de outros, à medida que foi adquirindo conhecimento, mas não consegue curar a sua ferida.  Um dia percebeu que a sua ferida não tinha cura, mas percebeu também que foi nesta busca de cura para a sua ferida, que adquiriu tanto conhecimento, que experimentou e vivenciou situações que o engrandeceram e nesse momento de iluminação, o seu interior encheu-se de amor por esta ferida e de grande sentimento de aceitação.

Quíron surge para nos ligar mais ao plano espiritual, ele retira-nos as ilusões e mostra-nos que não há bom ou mau, há caminhos e o que fazemos e aprendemos dentro deles. Faz-nos olhar para a realidade, vê-la como é, olhar para as nossas limitações e os nossos limites e em amor aceitá-los, aceitar o nosso presente e a partir dele recriarmo-nos e reinventarmo-nos.

Costumo comparar Quíron à pessoa que nasce sem perna. Não adianta querer mudar a situação, porque por mais que se faça, a pessoa continuará toda a vida a viver sem perna, ela não cresce. Então há que aceitar essa limitação, essa realidade e olhar para ela. E mesmo sem perna, a pessoa pode desenvolver ferramentas dentro de si, encontrar soluções, de forma a adaptar a sua vida através dessa situação, e fazer, como vemos em muitos casos, ações inimagináveis mesmo sem a perna, e assim a pessoa recria-se.

Todo o ser humano tem um Quíron, a posição onde ele está no nosso mapa astral é onde temos uma ferida profunda, onde encontramos dor e fragilidade, mas é nesse ponto que temos a chave para encontrarmos a cura pessoal, a luz interna e onde somos potenciais curadores. Este processo só pode ser feito com muita humildade e aceitação do que É, e com amor. É neste ponto de grande vulnerabilidade que nos conectamos à nossa espiritualidade, ao nosso Eu Superior, que nos humanizamos, é um ponto iniciático. 

Enquanto projetarmos nos outros ou no mundo a nossa dor, revoltando-nos contra tudo e todos, fugindo constantemente do confronto com esta ferida, nunca encontraremos a cura e vivemos em ilusão, condenados a uma prisão perpétua do sofrimento. À medida que vamos fazendo este processo, temos a responsabilidade de o tornar útil a nós próprios e levá-lo ao mundo e aos outros, àqueles que estão disponíveis para iniciar esta caminhada da procura da “chave”, tal como o fez Quíron.

Quíron, demora cerca de 50 anos a dar a volta ao zodíaco, ou seja, por volta dos 50 anos cada um de nós chega ao seu retorno de Quíron, aqui a ferida existencial é reaberta para se encontrar um novo significado para a vida.

Saturno encontra-se numa posição anterior a Quíron no sistema solar, pois Saturno fala-nos do passado, do que nos “amarra” ao que já foi vivido, é a fase da lagarta, e permite-nos fazer um trabalho de responsabilização, a lagarta tem uma missão a cumprir. Quíron, que se segue, é a fase do casulo, fase de metamorfose que exige este confronto com as fragilidades, dói, mas tem que ser, não existe outra forma, e representa o momento presente, o momento mágico, onde há o potencial e a força dinâmica onde tudo está a acontecer. A seguir a Quíron, encontra-se Urano, planeta da liberdade, onde a borboleta voa com as suas lindas asas, é a promessa do futuro.

A descoberta de um planeta (ou outro corpo), no céu, proporciona acontecimentos a nível terreno, em alinhamento com a energia desse planeta. Quando Quíron foi descoberto no céu, a 1 de Novembro de 1977, por volta dessa época surgiu a SIDA, a doença sem cura. Nesta fase, métodos complementares de cura começam a ganhar terreno no mundo, como por exemplo o Reiki, sendo que Quíron significa “mãos”.

“Se a força do bambu está na sua flexibilidade, também a nossa força nasce da aceitação das nossas limitações e da nossa disponibilidade em aprendermos com elas.”

Maria João Angélico


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