Homenagem a Agostinho da Silva

Homenagem a Agostinho da Silva

20/05/2020

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O novo Império é o do Espírito Santo

Agostinho da Silva foi alguém que perseguiu a santidade e a perfeição. Perseguiu o ideal de Santo Inácio de Loiola, “Em Tudo Amar e Servir”, e o exemplo de São Francisco de Assis, respeitando e amando todos os seres, cumprindo o despojamento e o desapego, ao ponto de ter feito o voto de pobreza.

Sobre Agostinho da Silva arrisco-me a dizer que foi uma das mentes mais brilhantes e um dos espíritos mais iluminados que passou por este planeta.

Era de uma lucidez e tinha uma capacidade de raciocínio, rápida e assertiva, absolutamente fora do comum. Tinha também uma impressionante bagagem cultural, como nunca vi igual. Era um aluno incansável. Pouco antes da sua morte, andava a aprender islandês. Interessava-se praticamente por tudo, desde moluscos até à física quântica.

Sabia como ninguém a extraordinária importância do culto do silêncio no nosso processo evolutivo. Como ele dizia, “diante do Divino só o silêncio é capaz de o exprimir”.

A título de curiosidade, é de sublinhar o aluno brilhante que foi tanto no liceu como na universidade. Entre 1916 e 1924 frequentou o curso liceal no Liceu Rodrigues de Freitas, que concluiu com a classificação de 20 valores.

Terminado o Curso Complementar de Letras, em 1924, matriculou-se na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, situada na Quinta Amarela, instituição muito ligada ao movimento cultural da "Renascença Portuguesa". Inicialmente, frequentou o curso de Filologia Românica e, mais tarde, o de Filologia Clássica, que concluiu a 15 de Julho de 1928 com a classificação final de 20 valores, tendo apresentado como tese de licenciatura uma edição comentada das poesias de Catulo.

Em 1929 doutorou-se em Filologia Clássica, com a classificação de 20 valores, defendendo a tese Sentido Histórico das Civilizações Clássicas, tornando-se, assim, o primeiro doutor da Faculdade de Letras criada em 1919.

Por impossibilidade de prosseguir uma carreira universitária na Faculdade de Letras, extinta em 1928, partiu para Lisboa, onde fez o estágio para Professor Efetivo na Escola Normal Superior (1930-1931), que concluiu com a classificação de 20 valores.

O meu avô, que também se licenciou na Faculdade de Letras do Porto, contou-me várias vezes uma história sobre o aluno mais famoso daquela faculdade, precisamente Agostinho da Silva. O curioso episódio passou-se durante a defesa da tese de doutoramento de Agostinho em Filologia Clássica. Como era o melhor aluno da faculdade, todos quiseram assistir. O antiteatro estava à cunha, com muitos a terem de se contentar com um lugar em pé.

Faziam parte do júri três ou quatro professores. O meu avô enfatizava o momento em que, quase desesperados, os elementos do júri já não sabiam mais o que perguntar. Até que, vencidos e convencidos pela sabedoria e eloquência do examinado, decidiram proferir a seguinte afirmação: “Damos vinte porque não podemos dar mais”.

Agostinho da Silva foi um dos maiores portugueses da nossa história. Estabeleceu muitas pontes da lusofonia entre Portugal, o Brasil, África, Timor, Macau e com muitas outras partes do mundo. Esteve na origem e fundação de vários institutos e universidades.

Prosseguiu com o sonho da alma lusitana através do V Império de Camões, de Padre António Vieira e de Fernando Pessoa. Esse V Império que, como ele gostava de lembrar, ficará para todo sempre e não desabará como os quatro que lhe antecederam. Porque este novo império é o do Espírito Santo e será eterno.

Tenho para mim que Agostinho da Silva foi um homem com H grande, sobretudo pela força do seu caráter. Foi um Sábio, um Mestre que entendia e decifrava muitos dos mistérios da vida. Foi um Visionário, um Profeta que previu em várias décadas muito do que está hoje a acontecer e do que ainda está para vir. E foi um Santo, por tudo o que foi o seu exemplo de vida, cumprindo-se interiormente no reencontro com a sua missão, e cumprindo-se exteriormente com muito do amor e compaixão que colocou ao serviço do próximo.

No livro “Conversas com Agostinho da Silva”, de Victor Mendanha, no capítulo “A quarta conversa – O Futuro no Presente”, o autor dirigiu-se com um amigo a casa do Agostinho da Silva para terem a dita conversa. Agostinho da Silva vivia num prédio antigo de Lisboa, sem elevador, pelo que tiveram de subir vários lanços de degraus em madeira, e que essa madeira transformou-se, sucessivamente, em vários metais. No final de cada lanço, em cada um dos sete patamares, o autor conta que lhes apareceu um anjo que lhes comunicou o seguinte:

“- Só quando dominares os teus instintos deixarás de ser animal para passar a chamar-te Homem.

- Só quando dominares os teus desejos conseguirás dominar-te a ti próprio e acordarás.

- Só quando compreenderes que o poder humano apenas corrompe e destrói poderás alcançar o verdadeiro poder.

- Só quando abandonares o desejo de conhecimento é que passarás a Conhecer.

- Só quando te deres a ti próprio poderás entender o verdadeiro Amor.

- Só quando concluíres que o mundo é ilusório e tão efémero como as ondulações provocadas por uma predada num charco conseguirás viver sem sofrimento.

- Sou o teu Instrutor do Mistério. A partir deste instante, o teu caminho para Deus vai ser mais fácil.”

Em jeito de homenagem, termino com um excerto de um poema de Agostinho da Silva, que revela uma grande humildade, ao reconhecer o quanto somos pequeninos diante do Criador.

De nós nada mais deixamos que vãs memórias,

Só Deus é Grande,

Só Deus é Santo

E o demais, histórias

Agostinho da Silva

JLB (jlb.amor.paz.luz@gmail.com)

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