Joana Fitas

História do Tarot - Santo Agostinho e os 22 Arcanos

Por Joana Fitas em Outubro de 2021

Tema Desenvolvimento Pessoal / Publicado na revista Nº 23
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A origem do tarot perde-se no tempo, de tal forma que não há uma tese coerente que nos explique o que serviu de inspiração aos 22 Arcanos Maiores, sobretudo ao Tarot de Visconti-Sforza, aquele que ficaria conhecido como sendo o primeiro tarot completo (embora autores defendam que não existiria nem a Torre nem o Diabo, com o qual eu não concordo, até porque, tal como estes, também desapareceram arcanos menores. Devemos relembrar a este respeito a atuação da Inquisição). 

Na bibliografia que dispomos até ao momento cada autor apresenta a sua visão em relação ao que para si estaria na origem de cada arquétipo, não explicando os 22 de forma sistemática.

Para mim, e porque tenho grande interesse em perceber o que está na origem, o contexto, só faria sentido uma tese que explicasse o conjunto, e não um a um, como se não fizessem parte do todo.

Antes de mais devemos desmistificar o Tarot, e todo um conjunto de ideias pré-concebidas que assolam alguns, até porque será importante para a recetividade àquilo que apresento mais à frente. Devemos, antes de mais, perceber que tem uma base profundamente ligada à cultura judaico-cristã, e até muito próxima da conceção católica. Nem eu tinha ideia do quanto.

Daí que se tornasse premente ler os autores medievais, do qual se destacou Santo Agostinho com a obra Cidade de Deus. 

Santo agostinho é um autor influente do início do medievalismo, está na transição da antiguidade clássica para a época medieval, que viveu entre 354 e 430. Tem um percurso contraditório, já que nasce na Argélia, 2km de Hipona, onde, mais tarde, será bispo. Passa muito tempo em Itália, e é este tempo que nos vai interessar descobrir para compreendermos o resto na nossa análise.

A sua conversão dá-se em 386, em Milão, onde é professor de retórica. Neste sentido, interessa-nos o tempo que Agostinho passa em Cassicíaco, onde, séculos depois, levantaram o Palácio do Duque Visconti, família responsável por mandar construir, no final do século XIV, uma arca em mármore (onde estão gravados a vida e os milagres do Bispo de Hipona), na Igreja dedicada a São Pedro, (que teria sido crucificado de cabeça para baixo, “Pendurado”), e onde descansariam os restos mortais de Agostinho.

A família Visconti seria uma grande patrocinadora da arte milanesa. Gian Galeazzo Visconti, a quem se atribui o patrocínio da construção da arca de Agostinho, representa o esplendor artístico, que é, depois, retomado por Filippo Maria Visconti, e que transformou a corte de Milão num dos principais centros do humanismo italiano. Filippo é pai de Bianca Maria, responsável por, em meados do século XV, encomendar um conjunto de cartas, que é vulgarmente denominado de Visconti-Sforza. 

Voltando a Santo Agostinho, importa perceber o contexto da obra Cidade de Deus. Em 410 Roma é saqueada, um aviso da queda do Império, e esta obra é uma resposta a esse evento e ao facto dos cristãos estarem insatisfeitos. No fundo, trata-se de uma enciclopédia cristã, composta por 22 livros, que são uma defesa do Reino (cidade) de Deus, em oposição à cidade do Homem, que será encontrará aquando do julgamento final.

De uma forma geral abordarei, de seguida, alguns livros em relação com os Arcanos Maiores do baralho de Visconti-Sforza. Esta obra de Agostinho é composta por 22 livros e 22 arcanos maiores são os que nos contam a jornada do Herói. Para esta análise interessa-nos apenas o desenho dos Arcanos de Tarot de Visconti-Sforza.

O livro I é uma apologia à virtude da humildade, requisito obrigatório para aceder à Cidade de Deus. Descreve-nos o homem bom, firme e obediente aos preceitos cristãos, apelando à pobreza e simplicidade, ao despojamento. E na carta vemos o Mago despojado, com apenas o básico à sua frente, embora a sua indumentária revele que seja alguém que tem posses, que vive bem. Como nos diz Agostinho, em relação a Paulino, bispo de Nola, que, voluntariamente, passou de muito rico a muito pobre, o “mestre despojado“, na pobreza há santidade, “Santa Pobreza”.

No livro II são abordados os cultos aos deuses pagãos, que qualifica de obscenos, sublinhando a forma como são cultuadas e representadas as deusas. A isto opõe a Igreja, a única capaz de educar para Cristo (fonte de verdade), que dá as normas de conduta – representada na Bíblia que está na mão da Papisa. Roma seria a mãe da Cristandade, a Papisa, porque autoridade máxima dentro da Igreja dos homens, que, no capítulo adiante, dá vida à Imperatriz, cidade-mãe do Império romano.

Convém, a este respeito, perceber a Papisa como uma heresia, o que estaria de acordo com as críticas que o autor apresenta à República. Devemos, ainda, lembrar Manfreda Visconti, relacionada com a fundação da seita dos Gugliemitas, com Galeazzo I Visconti, sendo eleita Papisa, defendendo a igualdade entre géneros, e reverenciada pelos crentes, que acaba condenada à fogueira, como herege.

É no livro seguinte, terceiro, que o autor nos mostra por que motivo Roma não desapareceu, e passamos da Papisa para a Imperatriz, ainda que dominada pelos males morais (livro II) e pelos males físicos (livro III), é capaz de se defender, a Roma Imperatriz – ligação entre a república e o império. 

O livro IV já se refere amplamente a Roma enquanto Império, e já não como república. Que, mesmo enfrentando graves crises, foi poupada pelo seu destino como coração do Império. Diz-nos Agostinho, “(…) De que qualidade eram os hábitos morais dos romanos, e por que razão o verdadeiro Deus, em cujo poder estão todos os reinos, se dignou a ajudá-los a estender o seu império (…). Parece-me que agora devo, portanto, falar (e mais demoradamente) do incremento do Império Romano“. 

O que nos remete para o arcano IV O Imperador, que apresenta no chapéu a águia imperial, tal como tínhamos no escudo da Imperatriz, que faz parte da heráldica da família Visconti-Sforza. Apresenta-nos um homem mais velho, que remete para a sabedoria e a estabilidade, que nas mãos um Globo e um ceptro, símbolos do domínio, controlo, e poder imperial.

O livro V é muito interessante, nele introduz o conceito de Oráculo, que não prevê, mas anuncia. E isto é fundamental para percebermos o desenho do arcano Enamorados. Ele usa o livro para refutar os astrólogos e a astrologia, e usa para isso o exemplo dos gémeos, tão diferentes, muitas vezes até no género – “De resto, nas conceções dos gémeos em que, sem dúvida, são os mesmos os momentos dos dois, como é que acontece que sob a mesma constelação fatal seja concebido um varão e uma fêmea? “

Assim seria Deus a dar o destino ao Homem e não o alinhamento dos Astros. Introduz o conceito de livre-arbítrio, e quando olhamos para o Arcano o conceito de escolha ganha destaque - o Arcano dos Enamorados tem o número VI, mas originalmente cada uma das lâminas não teria numeração, pelo que esta terá sido uma qualificação posterior. 

Paralelamente, percebemos no livro VI da Cidade de Deus o fundamento para o arcano O Papa: “É ele próprio quem confessa ter tratado primeiramente das coisas humanas e em segundo lugar das divinas pela simples razão de que foram as cidades o que primeiro existiu e depois é que estas criaram a religião. Mas o certo é que a verdadeira religião não provém de cidade alguma terrena“. 

No livro VIII, o autor usa-se da filosofia e dos filósofos, os mais próximos da verdade, para mostrar Deus como o verdadeiro, e, portando, único digno de ser adorado. Na Antiguidade, a Justiça era uma das virtudes cardeais, diretamente ligada à ética, de que nos fala, assim como do estabelecimento da justiça e a introdução do conceito de licitude, sendo que o conceito de verdade surge sempre associado a Deus e à verdadeira religião, para mostrar a mentira do paganismo. E com isto chegamos ao arcano VIII A Justiça.

No livro X é explicado o processo de purificação da alma, durante o qual poderá haver a influência do demónio, e a ajuda seria dada por Deus por intermédio dos anjos. Fala-nos, ainda, do sacrifício como sendo fundamental para a purificação, e aqui introduz o martírio – que só tem lugar por interferência, necessária, do demónio: “em tempos limitados e previamente fixados foi mesmo permitidos aos demónios um poder que lhes permite incitar os homens que eles dominam e neles fomentar tiranicamente ódios contra a Cidade de Deus… todavia, a sua conduta, longe de ser nociva à Igreja, é-lhe antes proveitosa porque completa o número de mártires“.

Assim, a purificação passaria por Vida-Morte-Ressurreição. No arcano X Roda da Fortuna vemos este processo e a interferência falada.

No livro XII encontramos a descrição do arcano O Pendurado, e a este título devemos relembrar Pedro, teria tido uma pena pesada para se purificar dos pecados, e que escolhe ser crucificado de cabeça para baixo, por não se sentir digno de morrer como Cristo: “esta inversão perturba a paz da carne e por isso é penosa. Todavia a alma está em paz“.

Aqui temos a noção de que só o sofrimento faz chegar a Deus, o homem corrompido pelo vício que sofrerá a pena eterna. O martírio que purifica e liberta.

Quando lemos a carta do Pendurado temos implícita a noção de sofrimento, de paralisia, também como algo necessário para o crescimento, relacionando-a com as provas de expiação. 

No livro XV, o Diabo e o conceito de Pecado são os temas mais trabalhados, embora a dualidade Deus/Diabo, bem/mal, virtude/pecado seja trabalhada ao longo de toda a obra. É abordado o conceito de pecado original, a desobediência, origem de lutas e doenças, que oporia a cólera à misericórdia. 

Esta dualidade é a base de toda a obra que nos fala na oposição entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Dá o exemplo de Caim e Rómulo, que pertenciam à dos homens, com o pecado da inveja e ódio; e de Abel e Remo, que pertenceriam à de Deus. 

O desenho desta carta, tal como da seguinte, a Torre, não chegou até nós, ainda assim os dois livros fazem-lhes correspondência. 

No livro XVI, e após mostrar o desenvolvimento da cidade terrena, mostra-nos que a ambição do Homem é um pecado que tende a levar a mudanças irremediáveis. Caim é responsável pelo reino na conhecida Babilónia, cidade que exerceria a sua hegemonia enquanto capital, sendo que a ambição da sua linhagem era a de construir uma Torre tão alta que chegaria a Deus, e que por Ele teria sido destruída, como é descrito no livro Génesis. Falamos aqui da famosa Torre de Babel, que resultou na confusão das línguas, com total paralelismo ao Arcano XVI A Torre.

E, em termos oraculares, é vista como uma confusão resultante de uma destruição. Algo que é iminente, e que muitas vezes optamos por não encarar, seja por orgulho, ambição… e quanto maior for a resistência à queda, mais ela se fará sentir, tal como o rasto de destruição. 

No livro seguinte, Agostinho fala-nos de Israel e de David, da construção da Cidade de Deus na Terra, daquele até Cristo. David teria sido ungido rei de Israel por Deus, Israel tem importância fundamental no judaísmo, (a Israel terrestre que é escrava, e Israel livre que é a Cidade de Deus). 

Esta terá sido governada por David, que tinha como símbolo a Estrela, cuja identificação era plena. Na óptica do autor, embora os judeus fossem os escolhidos, o sacerdócio mudaria para os cristãos - a linhagem directa de David chegaria Jesus, e, enquanto aquele reinou segundo a carne, este reinaria segundo o espírito. Acreditava-se que a missão de David era construir uma casa para glorificar Deus, mas essa casa teria sido edificada por Cristo, segundo Agostinho.

Os judeus e David têm uma identificação plena com o símbolo da estrela, também conhecida como a Estrela de David, e assim chegamos ao capítulo XVII e ao arcanos XVII a Estrela. 

Por motivos de economia de espaço, e da vossa paciência, optei por selecionar alguns livros, deixando de fora outros mais evidentes, tal como o livro XIII que fala da morte, enquanto forma de castigo e de libertação em relação ao pecado original, distinguindo, o autor, a morte da alma da morte do corpo, já que aquela será imortal – “outrora mereceu-se a morte, pecando – agora cumpre-se a justiça, morrendo“. Pelo que é um meio necessário para a vida eterna. Correspondendo ao arcano XIII a Morte.

O livro XX da Cidade de Deus fala-nos sobre o juízo final e respectivo julgamento, em que, conforme Agostinho, “toda a Igreja do verdadeiro Deus afirma na sua confissão e profissão pública de fé“ [credo]. Neste momento, os mortos ressuscitariam para serem julgados.

Ao olharmos o desenho do arcano XX o Julgamento percebemos o desenho de um túmulo, do qual saem três pessoas, e no cimo dois anjos com trombetas. Um julgamento que abre as portas do novo mundo, arcano XXI, a Cidade de Deus, à qual a alma verdadeiramente pertenceria, permitindo o renascimento do novo homem que “tratará da eterna beatitude da Cidade de Deus“ (livro XXII que corresponde ao arcano do Louco).

Esta é uma abordagem sucinta, o meu ponto de vista sobre aquilo que terá servido de fundamento ao desenho e inspiração aos 22 Arcanos Maiores do Tarot de Visconti-Sforza, explicando de uma ponta a outra cada uma das imagens, que, em essência, serão tão diferentes, sem necessidade de as distanciar quer espacialmente, quer no tempo. O tema será desenvolvido adequadamente numa obra dedicada ao tema.

Joana Fitas









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