Ricardo Picão Rodeia

Moxabustão

Por Ricardo Picão Rodeia em Março de 2013

Tema Saúde
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Moxa: o tratamento que veio do frio

O princípio fundamental deste método é a aplicação de calor em determinados pontos e áreas do corpo humano com finalidades preventivas e curativas.

A origem da palavra em chinês pode ser traduzida como “longo tempo de aplicação do fogo”, sendo considerada uma espécie de acupuntura térmica.

A Moxabustão ou Moxibustão, consiste na combustão lenta de uma planta, normalmente a Artemísia (Artemisiae argyi /Artemisiae vulgaris e Artemisiae sinensis), que aquece rapidamente. A radiação resultante da sua combustão penetra facilmente nos pontos de acupuntura, aquecendo o Qi1 e o Xué2 (Sangue) e influenciando a sua circulação nos vasos sanguíneos e canais de energia, frequentemente denominados de Meridianos.

A moxa em combustão apresenta um cheiro característico e pode produzir bastante fumo. Embora tenha um odor agradável, o fumo resultante da combustão pode tornar-se incomodativo para alguns pacientes mais sensíveis. Porém, a sua utilização terapêutica é sobejamente mais vantajosa do ponto de vista da promoção da saúde bem como na prevenção e tratamento de doenças.

O calor da Moxabustão é extremamente penetrante, tornando-se eficaz quando há menos circulação. O seu uso é extremamente vantajoso para resolver problemas e diferentes patologias diretamente relacionadas com o frio e a humidade3 como, por exemplo, alterações e deformações osteoarticulares, degenerações neuropáticas e tendinomusculares e do tecido conjuntivo, onde se enquadra um extenso rol de doenças, quer de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa, como da Medicina Convencional que conhecemos no ocidente.

Todavia, o uso de moxa é indicado para muitos outros casos. As alterações funcionais dos órgãos e vísceras também são tratados por intermédio deste método terapêutico podendo, nalguns casos, resolver-se totalmente problemas de saúde sem recurso a qualquer outra técnica ou método. A título de exemplo, refira-se a eficácia do uso de moxa para distúrbios gastrintestinais, tais como diarreias crónicas, cólicas, obstipação e enfartamento.

A História da Moxabustão

Vestígios arqueológicos e achados antropológicos sugerem que o uso do fogo e do calor para fins terapêuticos remonta ao próprio começo da humanidade, com a descoberta do fogo no período Paleolítico. Pensa-se que o efeito terapêutico ocasional de uma brasa a queimar determinada área do corpo seja o primórdio da Moxabustão.

Os textos mais antigos conhecidos, que referem o uso de calor por cauterização direta sobre a pele, datam de um período muito remoto da história da Humanidade. A Moxabustão, tal como hoje se conhece, é usada na China há mais de 2200 anos. É um método terapêutico frequentemente associado à Acupuntura - Medicina Tradicional Chinesa.

A primeira menção descrita e sistematizada sobre Moxabustão, surge na primeira parte do livro Huang Di Nei Jing4- Su Wen5: “A região norte, compreendendo na sua maior parte terras altas, tem as mesmas características de armazenamento que a estação invernal. As pessoas geralmente têm de lutar com terríveis ventos frios, geada e gelo. Estão felizes com as suas vidas nómadas, permanecendo em tendas e vivendo de derivados de leite. Portanto, as suas vísceras são suscetíveis de calafrios e frequentemente sofrem de distensão abdominal. As suas enfermidades são melhor tratadas com cauterização por meio de queimaduras com moxa. Assim, o método de Moxabustão tem sua origem no norte.”

Ainda na segunda parte do livro Clássico de Medicina Chinesa Huang Di Nei Jing – Ling Shu, refere a importância da aplicação deste método e técnica de tratamento: “Quando a acupuntura é ineficaz, a moxa é apropriada” e no capítulo 75 da mesma obra está escrito “quando o sangue nos vasos se torna estagnante ou fica bloqueado, deve ser tratado somente pelo fogo”.

Em que consiste a sua aplicação?

Existem vários tipos de moxa, mas as que mais se usam são a moxa em bastão ou charuto, a moxa em “lã” e a moxa oca.

A sua aplicação pode ser direta, indireta ou sobre a agulha (”agulha aquecida”). Na aplicação direta, a moxa em charuto pode ser desfeita e refeita em pequenos cones moldados pelo terapeuta, ou então utiliza-se moxa em “lã”. Os cones de moxa, também são usados e aplicados sobre fatias de alho, gengibre ou outras plantas com propriedades terapêuticas, e tem por objetivo aquecer e fortalecer o ponto ou área com influência energética.

A aplicação de moxa diretamente sobre a pele é naturalmente impopular no ocidente, porque envolve o risco de provocar uma queimadura e posteriormente uma cicatriz.

Na aplicação indireta, a mais popular, a moxa em bastão é acesa e aplicada próxima do ponto que se pretende estimular, a uma distância até duas polegadas (cun ou tsun), aproximadamente de 1 a 5 centímetros.

Na aplicação sobre a agulha, a moxa, uma vez moldada em cones, pode ser colocada na parte superior da agulha punturada e depois acendida. A área à volta da agulha com moxa, deve ser protegida com uma folha de alumínio para que algumas cinzas ou faúlhas ainda quentes não caiam sobre a pele do paciente.

Nalguns tratamentos, a moxa pode ser aplicada em regiões mais extensas do corpo com o intuito de aumentar o aporte sanguíneo e energético nessas regiões debilitadas.

A duração dos tratamentos com moxa é variável, mas raramente excede uma hora e não deve ser inferior a 10 minutos.A moxa pode ser utilizada em praticamente todos os pontos, embora na região do tórax e face exija uma precaução e uso diferenciado. A sua aplicação varia conforme o diagnóstico, pelo que o seu uso não é indicado em todos os tratamentos.

1 A importância desta obra é equivalente aos textos médicos gregos que integram o corpus de Hipócrates.

2 Tratado dos Diferentes Métodos de Tratamento e Prescrições Apropriadas (60) / Dos Distintos Métodos de Tratamento para pessoas de distintas regiões geográficas – Livro  IV, Capítulo 12.

3 Energia vital, funcional e nutritiva – Matéria a ponto de se tornar energia, ou energia a ponto de se materializar .  Ted Kaptchuk.

4 Refere-se a capacidade funcional que o sangue apresenta para aquecer, nutrir e humedecer os tecidos corporais.

5 Na perspectiva da Medicina Tradicional Chinesa, os factores ambientais e climáticos exteriores, podem ser consequência direta de distúrbios fisiológicos que conduzem à doença – Energias Externas Perversas

Xie Qi

Referências Bibliograficas

  • CHUNCAI, Zhou, Clássico de Medicina do Imperador Amarelo – Tratado Sobre a Saúde e a Vida Longa (Huang Di Nei Jing), Editora Roca, São Paulo, 1999.
  • EMBID, Alfredo – Su Wen: Huang Di Nei Jing, Primeira parte – Introduccion y notas. Mandala Ediciones. Madrid,1990.
  • JUNYING, Geng e ZHIHONG, Su, Acupuncture and Moxibustion, New World Press, Beijing, 1991.
  • LIAN, Yu-Lin et al., Atlas Gráfico de Acupuntura Seirin, Konemann, Barcelona, 2000
  • VÁRIOS AUTORES – Terapias Naturais na prática de enfermagem. Edições Sinais Vitais. Coimbra, 2003.
  • WILLIAMS, Tom, A Medicina Chinesa, Editorial Estampa, Lisboa, 1996.
  • Shanghai College of Traditional Medicine: Acupuntura, Um Texto Compreensível. Editora Roca Ltda. São Paulo, 1996.

  • Ricardo Picão Rodeia
  • Departamento de Pós-Graduação e Investigação do Instituto Português de Naturologia
  • Docente e clínico em Medicina Tradicional Chinesa – Acupuntura
  • Professor no Instituto Português de Naturologia

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