Dulce Pombo

Lilith a Primeira Mulher

Por Dulce Pombo em Agosto de 2021

Tema Consciência / Publicado na revista Nº 22
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Lilith é desconhecida do cristianismo primitivo embora tenha aparecido nos primeiros séculos da era cristã. Este mito  pertence à  literatura apócrifa e à tradição rabínica de transmissão oral. Datado entre os séculos VIII e X a.C., o manuscrito  de Ben Sirak é considerado o registo mais antigo que se conhece sobre Lilith. Aqui é descrita como tendo sido a primeira esposa mítica de Adão. Contudo, Lilith, no imaginário  judaico cristão é  a  um demônio feminino que pela noite provoca os jovens castos e também  responsável pela morte prematura de crianças recém nascidas. No Zohar, o Livro do Esplendor, uma obra cabalística do século XIII que se constitui no mais influente texto hassídico, assim como no Talmude,  Lilith é descrita como um sucubus – demónio sexual. Na etimologia judaica,  Lilith deriva do aramaico layil, que significa ‘noite’ a lua 'negra’ correspondente a lâmia grega. 

Segundo a narrativa mítica, ao contrário de Eva que foi criada por Deus da costela de Adão,( segundo a narrativa de Gênesis), Lilith, de acordo com Hermínio, foi feita do barro, à noite. Lilith teria sido criada tão bonita e interessante que logo arranjou problemas com o primeiro o homem.  Eva foi então criada para a substituir e ser o seu oposto - obediente, companheira, submissa.  Segundo o mito, as relações entre Adão e Lilith foram marcadas pela paixão capaz de dominar Adão e fazê-lo perder a razão entregando-se à luxuria. Na  tradição oral das versões aramaicas e judaicas,  a relação entre os dois seria perturbadora. Os conflitos entre Lilith e Adão, advinham  da recusa de Lilith pela submissão que lhe fora imposta pela comunidade patriarcal. Diante da recusa de Adão em aceitá-la como sua igual, inclusive durante as relações sexuais, ela é expulsa da comunidade dos homens e recebe como punição o exílio no Mar Vermelho, transformando-se num demónio feminina que ataca os homens durante os sonhos e fantasias eróticas. Ela invade os sonhos e mantém relações sexuais com estes desnorteando-os. As relações do homem com Lilith são sempre marcadas pela perversão, confusão mental, culpa, depressão, psicose e destruição. 

Em outras palavras, Lilith é marcada pelo  desejo de liberdade, autodeterminação, espontaneidade, de escolher. Decidida a não se submeter ao homem e, a odiá-lo como igual, resolveu abandoná-lo, deixando-o sentir a dor da rejeição. 

A tradição oral afirma que Adão queixou-se a Deus sobre a fuga de Lilith e, para compensar a sua tristeza, criou Eva, que criada a partir da costela de Adão passa a ser o arquétipo do modelo feminino, segundo a tradição judaico cristã.

Eva a mulher submissa e devotada ao lar em oposição a  Lilith,  força destrutiva.  Eva é construtiva e Mãe de toda humanidade e Lilith o lado negativo e a mulher em estado natural, antes de sofrer as transformações impostas pela cultura, não admitindo nenhuma hierarquia nem biológica, nem social. 

Na consciência individual e coletiva, Lilith – a sombra feminina – tem sofrido, por essa repressão cultural. Na Idade Média,  a Inquisição, a caça às bruxas, ou melhor às mulheres e aqueles homens que, com elas se relacionavam com compreensão e proximidade, porque se partia da premissa da convicção bíblica de que a mulher é condenada. Daí, surgirá em 1489, um livro escrito por Heinrich Kramer e James Sprenger, intitulado Malleus Maleficarum, que tinha por objetivo, ser o guia dos inquisidores na busca às incorporações do diabo.  

No tribunal do Santo Ofício os inquisidores consideravam como bruxa toda mulher que demonstrasse algum tipo de rebeldia – o primeiro sinal para ser bruxa -  contra a ordem patriarcal. O julgamento era precedido de torturas e durante o julgamento a mulher era torturada in extremis até confessar as suas relações com o demônio. Quando esta confissão ocorria os inquisidores aumentavam as torturas até que a mulher confessasse que mantivera relações sexuais com o demônio. 

A punição de Lilith, por outro lado, reside no seu banimento da comunidade dos homens: no isolamento social e na solidão. Ela deve sofrer as consequências dos seus atos sozinha no deserto. Deve ainda atormentar com sua sensualidade e seu erotismo o sonho casto do santo, daquele que busca ter um coração puro. Nisto consiste a sua maldição. Ela agora não é apenas excluída, é temida. E pela força da sua sensualidade é também desejada.

A relação de Lilith com o sexo oposto é marcada pela ambivalência: amor e ódio, atração e repulsão, medo e desejo, prazer e destruição. 

Em termos psicológicos a punição de Lilith representa o recalcamento dos instintos mais primitivos da natureza feminina: a agressividade e a sensualidade. Repressão esta que consequência suprimiu a liberdade e a espiritualidade da mulher na cultura patriarcal. 

No entanto, Lilith nunca esteve de todo ausente da comunidade dos homens. Ela reapareceu primeiro nos sonhos e fantasias eróticas e posteriormente através da prostituição sagrada e de outras formas de prostituição. Contudo, sua presença sempre foi punida severamente pela sociedade. Esta  repressão dos atributos femininos presente no mito de Lilith criou o ideal ascético de mulher assexuada cuja destinação primordial era a procriação de filhos para servir de mão de obra nas sociedades agro-pastoris e industriais. 

Lilith representa o ápice da repressão dos aspetos obscuros e negativos da personalidade da mulher na cultura patriarcal do ocidente e do oriente. A repressão da sexualidade de Lilith soterrou também a sua agressividade, a sua criatividade e a sua espiritualidade. Esta repressão  criou a figura da esposa dissociada da imagem da mulher, o que significa que o homem ocidental não consegue identificar a esposa e a amante numa mesma mulher, recorrendo ao duplo padrão de moral para realizar seus desejos sexuais.

Após a década de 1960 a psicologia voltou-se para o estudo destes atributos e para a realização de workshops para tentar  despertar e a intuição na alma masculina  o que pode levá-lo a melhor compreender a mulher e a própria natureza. 

Apesar da evolução, as mulheres ainda lutam pela igualdade da sua condição social perante os homens pagando um alto preço, que se traduz muitas vezes, no isolamento social e na solidão. No entanto, a conquista destas mulheres tem sido compensadora. Além da igualdade jurídica e outros direitos sociais e econômicos, a convivência lado a lado com o homem, na vida cotidiana, tem servido para transformar e humanizar a própria condição masculina com um pouco da ternura produzida pelo sentimento e pela intuição que transbordam da alma feminina. 

Em tom de conclusão, não vamos discutir se Lilith existiu, se foi um mito dos povos pré-bíblicos ou não. Importa aqui considerar o mito como uma parábola para se compreender alguns comportamentos femininos atuais. Neste sentido Lilith  serve para compreender alguns aspetos do comportamento da mulher ocidental na sua luta pela reintegração na comunidade dos homens. O mito de Lilith não esgota em si mesmo tudo que se pode escrever sobre a mentalidade da mulher. Um estudo mais completo deverá incorporar as contribuições de Eva, Pandora, Maria, e também Maria Madalena para  a formação da mentalidade da mulher ocidental. 

Uma lenda Hindu: 

Depois de uma semana o homem voltou e disse: ‘Senhor, a criatura que me deste faz a minha vida infeliz. Ela fala sem cessar e atormenta-me de tal maneira que não tenho descanso. Ela insiste em que eu lhe dê atenção o dia inteiro e assim as minhas horas são desperdiçadas. Chora por qualquer motivo e leva uma vida ociosa. Vim devolvê-la por que não posso viver com ela’. O Criador disse: ‘Está bem. E tomou-a de volta’. Depois de uma semana, o homem voltou ao Criador e disse: ‘Senhor, minha vida é tão vazia (…) que eu quero aquela criatura de volta! Eu sempre penso nela, em como ela dançava e cantava, como me olhava, como conversava comigo e depois se achegava a mim. Ela era agradável de se ver e de se acariciar! Eu gostava de a ouvir rir. Por favor, dá-ma de volta.’ O Criador disse’ esta bem’.  Mas três dias depois o homem voltou e disse: ‘Senhor, eu não sei – não posso explicar, mas depois de toda a minha experiência com esta criatura, cheguei a conclusão de ela me causa mais problemas do que prazer. Peço-te, toma-a de novo! Não posso viver com ela.’ O Criador respondeu: ’. Mas também não pode viver sem ela.’ E virou as costas ao homem e continuou o seu trabalho. O homem, desesperado, disse:’. Como e que eu vou fazer? Não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela.

Dulce Pombo


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