Dulce Pombo

A Mochila Invisível

Por Dulce Pombo em 2021-03-08

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Quando nascemos, o mundo já está construído, pronto a usar. Só resta viver nele como nos ensinaram. Os padrões morais, sociais e culturais são impostos desde uma idade em que não há consciência individual, somos integrados num incessante processo de socialização. Comportamentos contrários às normas, ditos desviantes, podem suscitar coação e penalização e autocensura. A nossa Personalidade vai-se desenvolvendo ao longo da vida (…). Somos como o Sol que alimenta a Terra e produz o que há de mais belo, de estranho e de mau; somos também como as mães que carregam no seio a felicidade desconhecida e o sofrimento. No início não sabemos o que está contido em nós, que feitos sublimes ou que crimes, que espécie de bem ou de mal. Somente o outono revela o que a primavera produziu e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou. (…) assim como a criança precisa de se desenvolver para poder ser educada, da mesma forma a Personalidade deve primeiro desabrochar, antes de ser submetida à educação. E aqui já começa o perigo. Precisamos lidar com algo de imprevisível, pois não sabemos como e de que forma se desenvolverá a Personalidade em formação. A doutrina cristã educou-nos para que acreditássemos no mal original da natureza humana. Mas até os que já se afastaram da doutrina cristã são por natureza desconfiados e temerosos a respeito das possibilidades ocultas nos abismos de si próprios. (JUNG, C.G., 1981, p.181) Roberto Bly, poeta e ensaísta norte-americano, diz que nascemos com uma energia irradiando de todo corpo e psique, como uma bola de energia. Ao longo da infância vamos apercebendo de que os nossos pais e educadores não apreciam certas partes daquela bola, como quando dizem: “não te parece que já brincaste demais?” ou “não é bonito fazeres isso”. Por temor à punição ou à rejeição, por necessidade em agradar e ser amado, a criança esconde o que não é apreciado positivamente numa “mochila invisível” que carregará ao longo da vida. Essa mochila terá algum peso, conforme a educação familiar é mais ou menos rígida, mais ou menos negligente, quando a criança chega à fase de socialização posterior: a escola. Fase particularmente dura e exigente, para além do treino intelectual, há uma formatação moral tida como essencial para se viver em sociedade. A mochila vai enchendo e tornando-se pesada. Ao longo da adolescência, com ou sem frequência escolar, a pressão dos adultos é substituída (ou acrescida) pela dos colegas da mesma

geração. A construção da Persona tem aqui o momento original, graças à consciência do indivíduo em ter de corresponder a um modelo aceitável. De sucesso, se possível. A Persona é o oposto simétrico da Sombra, ainda que igualmente inconsciente.

Moda, beleza, popularidade tendem a tornar-se referentes coletivos para tomadas de decisão individuais. Marketing e pressão de colegas atuam nesse processo agressivo que tem no bulliyng uma forma extrema de coação. A recompensa à aceitação e conformismo é a integração; o reverso são comportamentos desviantes à norma, potencialmente estigmatizáveis.  

As sociedades ocidentais tendem a englobar subgrupos sociais com normas diversas, por vezes antagónicas e, frequentemente, ignorando uns aos outros. Também o “desviante” pode-se tornar fator de novidade e sucesso, criando um novo “normal” mais tarde. E tudo isso pode coexistir nas vinte e quatro horas  do dia do mesmo indivíduo: ele assume um “eu” em casa, outro com os amigos, outro no emprego, e por aí adiante.  Por ser assim rica, diversa, contraditória, é que o indivíduo tem dificuldade em entender qual é o seu papel (que modelo seguir) na sociedade.

Com tudo isto, a mochila fica maior e mais pesada, tanto há a esconder dentro. Porém,  essa é a ironia do processo, o material psíquico reprimido não é um peso morto, muito pelo contrário: tentará  libertar-se  e exprimir-se em conflito com a autocensura, igualmente inconsciente e tão mais violenta quanto mais forte for a tentativa de exteriorização. Essa exteriorização pode surpreender ao darmo-nos conta de coisas que dissemos ou fizemos, mas que não parecem nossas (“eu disse/ eu fiz aquilo?!). Acontece quando os relacionamentos sistematicamente não dão certo; quando as pessoas se afastam queixando-se do mau-feitio; quando há ciúme patológico; quando se alimenta um vicio; quando se atraiçoa quem confia; quando se omite para não agir; quando se manipula; quando se vitimiza para agredir.

Por estar reprimido, esse material psíquico pode ser consciencializado como algo estranho, mórbido, ameaçador. Inclusive, num efeito espetacular, vê-se como partindo de outros contra nós aquilo que sai de nós contra os outros e nós mesmos – a projeção.

O drama é este, chegamos bebés “ultrapassando nuvens de glória”, trazendo connosco a herança de mamíferos e aptidões, maravilhosamente preservadas dos cento e cinquenta mil anos de vida nas árvores, raivas bem preservadas dos nossos cinco mil anos de vida tribal ‒em suma, irradiando os nossos trezentos e sessenta graus‒ e oferecendo esse dom aos nossos pais. Eles não queriam isto, queriam uma linda menina ou um lindo menino.

Este é o primeiro ato do drama. Não quero dizer que os nossos pais foram perversos; eles precisavam de nós para alguma coisa. Nós continuamos a fazer o mesmo aos nossos filhos. Os nossos pais rejeitaram aquilo que nos eramos, antes sequer de podermos falar e, assim, a dor da rejeição está, provavelmente, guardada em algum lugar pré-verbal, dentro de nós. (Alice Miller, especialista em psicologia da infância, em seu livro Prisioners of Childhood)[1].

Neste livro, a autora ajuda-nos a libertar da culpa de termos rejeitado tantas coisas em nós, de termos metido na mochila tantas emoções, comportamentos ou atitudes para agradar nossos pais: Não se culpe por isso. Não havia mais nada que pudesse ter feito, assegura-nos. Na linha do citado Robert Bly, confirma: Fizemos, enquanto crianças, a única coisa sensata perante as circunstâncias.

Quanto maior a mochila invisível, menor a nossa autorrealização: vive-se centrado num dos lados da personalidade -  a Persona, aquele aceite na sociedade onde se está inserido. A parte sombria é, por isso, a parte que não soubemos amar.

Texto de Dulce Pombo



[1] Retirado de ZWEIG, 1999, p. 127


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