Cristina Leal

Armadilhas do Amor (In) Condicional

Por Cristina Leal em Julho de 2012

Tema Sociedade / Publicado na revista Nº 10
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Gosto de afirmar com alguma certeza, que até aprendermos o Amor vivemos num campo armadilhado.

Fiel amigo desconhecido, acompanha-nos nas inúmeras lágrimas que em seu nome vertemos, nas idealizações que em seu nome fabricamos, nas canções que para ele cantamos, nos poemas que para ele escrevemos e…nas mentiras que até o aprendermos “nos” contamos.

Embrenhados em crenças e invadidos pela sede de encontro com a “cara-metade”, a “ alma gémea”, o príncipe ou a princesa que vai sanar para sempre todas as nossas dores e vazios existenciais, confundimos Amor com carências, profanando com facilidade o seu sagrado propósito nas nossas vidas.

Na verdade o Amor não se ensina, aprende-se.

E, como todas as aprendizagens, passa por um processo.

Processo este, onde numa primeira fase é inevitável confundi-lo, misturá-lo numa tombola com outras bolas que não têm a sua cor, o seu cariz, a sua essência para que no momento certo, ele em nós se revele, não mais como um jogo de probabilidades, ou uma espécie de golpe de sorte, mas como a maior certeza da nossa existência.

Até lá, há no entanto quem passe uma vida inteira em sua busca, driblando com os pés cansados uma pesada bola, por acreditar que é “fora-de-si” que o vai encontrar, e que o outro é a sua personificação.

E, apesar da relação a dois, ser uma excelente forma de o aprender, é importante saber separar as águas, pois quando falamos de uma relação não estamos necessariamente a falar de Amor.

Vivemos profundos apegos, faltas de liberdade, mentiras, posses, tudo em nome daquilo a que chamamos Amor. Controlamos o outro, na esperança de o(a) tornar nosso(a), retemo-lo(a) numa pequena porção de terra de onde não queremos que saia por medo de perdê-lo(a). Saciamos assim a nossa insegurança e garantimos (pensamos nós), a sua eterna “presença” na nossa vida.

Mas…que terá isto a ver com o Amor?

A expressão “ Amor incondicional”, que repetimos como gralhas é na verdade uma absoluta redundância, pois falar de Amor incondicional é a mesmíssima coisa que falar de água molhada.

Antes de mais o Amor é o que nós somos e não o que nós temos.

Quando permitimos expandir a sua vibração, indubitavelmente tropeçamos na sua “ incondicionalidade”. Da mesma forma que ao colocarmos a nossa mão debaixo da torneira, sabemos que “molhada” é uma propriedade natural da água, apesar dela poder estar fria ou quente (uma característica opcional).

Se quiséssemos condicionar esta propriedade natural da água, querendo fazer dela outra qualquer, não teríamos qualquer dúvida de estarmos a perder o nosso tempo.

Quando amamos verdadeiramente, aceitamos o outro integralmente, sem condições. Isto não quer dizer que não reconheçamos o que nele(a) nos causa ‘fricção’. Com o trabalho interior, vamos é percebendo que esta ‘fricção’ é a forma que a vida tem de nos mostrar a nossa própria sombra, os aspetos que em nós precisam de ser trabalhados, as partes das nossas personalidades que ainda estão feridas. É o ‘medo-de-perder-o-outro’, que nos faz condicioná-lo e não o Amor que por ele sentimos.

Despertar para esta consciência é despertar para a sua sacralidade e para o seu sentido nas nossas vidas.

  • É sabê-lo Uno, livre, integral.
  • É sabê-lo incondicionalmente AMOR.

Cristina Leal


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