Marco Aurélio Corrêa Basso

A Acupuntura japonesa - Terapia dos meridianos

Por Marco Aurélio Corrêa Basso em Março de 2013

Tema Saúde / Publicado na revista Nº 13
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Breve história

A Acupuntura existe no Japão desde há 1400 anos.

Inicialmente, a aprendizagem e a prática limitavam-se a copiar o que conseguiam importar da China e da Coreia.

A partir do século X, as relações entre os chineses e japoneses restringiram-se e estes começaram a desenvolver técnicas próprias e comentários aos Clássicos Chineses, derivados da sua observação prática.

No século XVII, no Japão, foi instituída a prática da Acupuntura pela população cega, que se manteve até aos dias de hoje, sendo que 40% dos acupuntores são cegos.

A partir do século XIX, a prática de Acupuntura foi sendo cada vez mais restringida, por ser considerada uma tradição que ia contra a tentativa de modernização e abertura do Japão ao ocidente.

Nos anos 20 do século passado, um movimento de incremento destas práticas começou a surgir em força: o “Keiraku Chiryo” ou a Meridian Therapy - Terapia dos Meridianos.

Este movimento alegava que as restrições anteriores tinham sido tão fortes que, provavelmente, muitas das ideias ligadas à tradição, descritas nos Clássicos, tinham caído. Neste sentido, iniciaram o movimento de “retorno aos Clássicos”, em que os escritos antigos eram avaliados através da aplicação prática e observação dos resultados. Apenas o que era considerado prático, útil e com resultados significativos iria permanecer.

Isto coincidiu com o aparecimento da estruturação da Medicina Chinesa na China como a conhecemos hoje e levado a cabo por Mao Tse Tung, numa tentativa de compilar os diversos saberes espalhados pela China.

Em 1947, Douglas MacArthur, comandante das Forças Aliadas no Pacífico, seguindo a pressão da classe médica, tentou eliminar estas práticas do Japão. Uma manifestação enorme de cegos surgiu em Tokyu, MacArthur caiu e a prática continuou. No entanto, começou uma grande cisão entre as práticas consideradas tradicionais, mais manuais, e as modernas, mais dependentes de máquinas, como Ryodoraku e a  Electropuntura.

Até 1971, a China manteve as portas fechadas aos estudantes ocidentais. Nesta altura, James Reston, um reconhecido jornalista norte- americano, escreveu uma reportagem sobre experiências de Apendicetomia com Acupuntura. O interesse na China explodiu, nomeadamente pela Analgesia. A projeção da China foi tal que deixou os japoneses na sombra. Os livros em língua Inglesa, que até então se apoiavam na tradição japonesa, passaram para a chinesa.

Atualmente, as práticas japonesas vão ganhando nova força.

Keiraku Chiryo - Terapia dos Meridianos

経絡治療

Keiraku Chiryo ou Meridian Therapy - Terapia Japonesa dos Meridianos, é um tipo de Acupuntura Tradicional baseada nos Clássicos Chineses, principalmente o Nan Jing. Iniciou-se nos anos 20 do século passado, mas a sua maior força começou a sentir-se nos anos 50.

Surgiu como resistência às alterações que vinham acontecendo no Japão, nomeadamente à presença mais forte da medicina ocidental e às restrições mais fortes que iam sendo impostas à Acupuntura.

Receando que esta se estivesse a afastar da sua essência, começaram a estudar os Clássicos, principalmente o Nan Jing. Este Clássico foi o primeiro a descrever de forma sistemática a Acupuntura como forma de regular a circulação o Qi (energia da vida) nos 12 meridianos, através do pulso, abdómen e inspeção de outros dados do corpo que ajudassem a construir um diagnóstico à luz da teoria dos cinco elementos e do yin e do yang. O texto descreve princípios de tratamento usando apenas agulhas, aplicando técnicas relativamente delicadas que permitissem regular o Qi e corrigissem os padrões de excesso ou de vazio.

Este texto era muito diferente do Huang Di Nei Jing Su Wen e Ling Shu, onde apareciam múltiplas variedades de tratamentos. O Nan Jing, descreve apenas o uso de agulhas delicadas. Na Terapia Japonesa dos Meridianos são usadas agulhas muito finas – entre 0.12 e 0.18mm, que são inseridas muito superficialmente – 0.5 a 2mm.

Tradicionalmente, os métodos usados para inspecionar e recolher dados para o diagnóstico são:

  • observar (p.ex. os 5 tipos de constituição);
  • escutar/cheirar (p.ex. os 5 tipos de voz ou os 5 odores);
  • questionar (p.ex. questões relativas aos sintomas e sinais);
  • apalpar (pulso, abdómen, meridianos).

O diagnóstico através do pulso é fortemente aplicado, também descrito no Nan Jing. Procura-se o que está deficiente e o que está em excesso; para padrão, considera-se aquele meridiano cuja deficiência é maior.

O diagnóstico final é depois feito com base nestes quatro meios de inspeção (quatro diagnósticos), sendo que o pulso e o abdómen têm preponderância. Normalmente, daqui resultam quatro padrões possíveis: deficiência do pulmão, do baço, do fígado e do rim.

Em resumo: na Terapia Japonesa dos Meridianos, o foco está no estudo dos meridianos ou canais, sendo que a doença é a manifestação dum desequilíbrio da circulação do Qi nos meridianos. O desequilíbrio dos meridianos é compreendido em termos de deficiência ou excesso, que é determinado pela apalpação, principalmente do pulso. Os Padrões Primários são padrões de deficiência: deficiência do pulmão, do baço, do fígado ou do rim. O tratamento é separado em Tratamento Raiz e Tratamento Sintomático e ambos são aplicados na mesma sessão. O princípio de tratamento é tonificar a deficiência e dispersar o excesso. O Tratamento raiz consiste em tonificar a deficiência primeiro, sendo as agulhas inseridas muito superficialmente e retidas por alguns instantes. A selecção dos pontos vem descrita no capítulo 69 do Nan Jing.

  • Marco Aurélio Corrêa Basso
  • Terapeuta Especialista em Medicina Tradicional Japonesa
  • Estudante da pós-graduação no Método Toyohari
  • Especialista em Medicina Tradicional Chinesa

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