Paulo Vieira de Castro

DHARMA MARKETING - Superar a maior de todas as crises

Por Paulo Vieira de Castro em Maio de 2012

Tema Sociedade / Publicado na revista Nº 9
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Na atualidade, tantas vezes, vê‑se o futuro como uma mera desculpa. E como seria possível construir um novo mundo nos negócios, partindo desta metáfora?

Acredito que só será possível reinventar o mundo, em especial o das empresas, partindo de uma única ideia: o retorno à simplicidade de valores, a uma estratégia de compromisso real, baseada em ideais pelos quais estejamos dispostos a morrer. Para isso, teremos de nos abrir à espiritualidade. Só assim poderemos tornar esta condição ativa. Esta será uma forte possibilidade de caminho, ante um futuro em que teremos necessidade de quase nada, onde a grande utopia será a da autonomia individual.

Ser realmente livre exige estar disposto a aceitar a interdependência como causa e efeito de tudo o que lhe aconteceu, acontece ou acontecerá, admitindo a existência de um mundo onde tudo está interligado e, consequentemente, num movimento perpétuo.

O ABANDONO DA POSSE

No futuro, tudo o que necessitaremos poderá ser transportado numa pequena mala de senhora - uma vida que seja. Já pensou que os filmes da sua vida, os livros que mais amou, as músicas e as imagens que sempre recordou, tudo o que guardou ao longo da sua existência caberá em 8 Gb de memória?Como é que isto poderá afetar o mundo dos negócios, em especial o comportamento dos consumidores, as suas necessidades, os seus desejos, a sua satisfação? Desde logo, as pessoas deixarão de ser colecionadoras de bens e de objetos, para regressarem à simplicidade de um mundo vivido na primeira pessoa, acumulando experiências diretas, tomando consciência que ao ser humano bastará muito pouco para ser realmente feliz.

O MUNDO GRÁTIS

No futuro, tudo será alugado, simplesmente partilhado ou usufruído por troca direta. Para isso, será necessária a existência de uma dimensão virtual - ou algo que se lhe assemelhe -, permitindo uma cooperação de proximidade, possibilitando, deste modo, que, à distância de um clique, encontremos tudo o que necessitamos ou desejamos.

Inspirando-se na própria mãe natureza, a internet veio provar que é possível substituir a competição pela cooperação. As redes sociais permitem já construir um mundo a meio caminho da gratuitidade. No futuro, o mundo será grátis! Com o desaparecimento do modelo de sociedade baseado na concorrência e no crescimento económico, surgirá uma economia que procura amadurecer, retornando à responsabilidade do cuidar, palavra tão esquecida no ambiente empresarial. Só uma vida baseada em valores poderá justificar a plena satisfação perante as injustas adversidades da vida. Os novos criativos e os empreendedores, irão utilizar os seus produtos para veicular novos ideais.

No futuro, todas as marcas terão uma justificativa política, uma matriz ideológica ativa. Para que tal seja possível, para uma nova liderança, teremos de contratar executivos de si mesmo. Habituados a lutar pelos seus próprios objetivos, será surpreendente ver como estes poderão ajudar na construção de um mundo mais responsável, onde a espiritualidade se distingue da mera abstração, ou contemplação.

A liderança para o terceiro milénio dependerá da aceitação de valores inalienáveis, que não poderão ser vendidos, nem mesmo comprados, onde só a prática acionará a completude de uma espiritualidade inclusiva, podendo, com isso, contribuir para melhorar a convivência entre todos os públicos relacionais. Não só passamos a incorporar valores mas, igualmente, a manifestar a pura crença nas razões da sua implementação. Os novos líderes estarão dispostos a morrer na defesa de valores inatos a qualquer ser humano, sem exceção. Repousando estes na origem da consciência de cada um, facilmente poderão ser projetados no inconsciente coletivo.

SOFT POWER E AUTO‑REALIZAÇÃO

Mas o que é que as organizações espiritualizadas têm em comum?

A resposta é simples: a capacidade de ter valores humanos operacionalizados. Na ausência de valores, qualquer organização se desintegrará, e o mesmo acontecerá às sociedades em iguais circunstâncias. Porque seria diferente com a empresa em que trabalha? Para a liderança pela transformação, para a auto‑realização, é fundamental que cada um dentro da organização saiba qual é a sua face original. Habitualmente, convivemos com uma face acidental, já que esta não nos é dada a partir da origem, de valores interiores, da intuição, mas sim de construções à medida das circunstâncias.Nas empresas, o referido erro de especialização deve-se, em grande parte, ao facto de, na contratação e na avaliação do desempenho, dar-se demasiada atenção ao fator personalidade. Tal atitude não parece de todo errada, isto se não nos esquecermos de avaliar os perigos referentes a este culto.

Vejamos: a raiz da palavra personalidade encontra‑se no termo máscara. As múltiplas personalidades são, afinal, simples máscaras. Confundir a face acidental de um indivíduo possibilita, grosso modo, uma prole de funcionários não realizados, com as consequências que facilmente serão intuídas pelas organizações.

Mas, será possível que a lucidez, a serenidade e a paz estejam presentes nas relações profissionais? Claro! O primeiro passo será o de contratar recursos humanos com base em critérios inclusivos, dando a devida importância aos soft skills (1), indo mais longe, julgando a sua responsabilidade espiritual. Depois, será necessário apostar numa formação complementar em mind‑sets (2), ou seja, em técnicas que vão para além do discurso, pelo que será essencial que se investigue a si mesmo até chegar à verdadeira origem do seu ser. Lá, está o princípio e o fim do caminho. Só assim o seu futuro deixará de ser uma mera desculpa.

(1) Soft skills - Competências comunicacionais e capacidade de trabalhar em equipa, com atitude positiva, autoconfiança, resolução de problemas de forma criativa, capacidade de manter o otimismo, etc.

(2) Mind-sets – in Diciário da Língua Portuguesa [...] compreensão do empreendedorismo, identificando o que estimula as mentes empreendedoras, o que encoraja as pessoas a tornarem-se empreendedores.

  • Paulo Vieira de Castro
  • Autor e Conferencista.

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